Solidão

  Ela nunca se queixou da solidão, tal como a solidão nunca se queixara dela. Tinham uma amizade pouco comum e, quando não estavam na companhia uma da outra, fosse por um dia ou dois, instantaneamente sentiam saudade e desconforto. Procuravam-se como um animal procura alimento, ou como os seres vivos o oxigénio.
  Ela nunca se queixou da solidão, porque precisava dela. Precisava de se sentir só, pois quando assim se encontrava, sentia-se dona do seu próprio mundo; um mundo que ninguém via. Precisava de se sentir só, pois só assim se sentia a ela própria. Ao estar com a solidão, novos pensamentos lhe surgiam; pensamentos de uma rapariga pouco comum que só via o mundo ao seu redor com seriedade se se encontrasse sozinha.
  Ela nunca se queixou da solidão, pois tinha longas conversas com ela; conversas essas que não podem ser descritas aqui, ali, ou em qualquer outro lugar. Conversas de quem está só, mas que não se importa de estar. Resumindo, eram conversas tão íntimas que não as consigo explicar. Se lhe perguntarem que conversas eram aquelas, talvez ela responda que não sabe; e se perguntarem à solidão, talvez ela diga que não se lembra. 
  E porque será que sofrem deste esquecimento? Se lhes perguntarem responderão simplesmente que não sofrem de qualquer esquecimento. Responderão que são uma só e que sofrem de uma intimidade avassaladora. Responderão que são duas almas inquietas que precisam de solidão para pensar. Ao fim e ao cabo, são duas almas que não se distinguem, porque quando temos a solidão dentro de nós, já ninguém a consegue retirar.
  É esta a solidão boa; a solidão que nos faz meditar e desejar que nunca acabe o prazer de conversar com a nossa consciência. Depois de ter reflectido acerca de todos estes aspectos para muitos de nós incompreendidos, ela decidiu abandonar um pouco a solidão que nela habitava até então. Saiu de casa e observou o mundo para mais tarde poder comentá-lo com a solidão.


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