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Um Observador da Vida

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Ando pelas ruas como uma mosca varejeira, febril e enérgico como uma máquina industrial que quer fazer tudo ao mesmo tempo. Nos braços carrego os materiais que me irão permitir descarregar tudo isto para o quadrado de uma tela. As estrelas desta noite encadeiam-me como se milhares de pirilampos estivessem a explodir no céu, espalhando as suas pequenas entranhas de luz pelo céu.
De repente, eu e os meus materiais de pintura somos empurrados por um bêbedo cambaleante que ia a passar.
– Tenha mais cuidado! – aconselhei.
O bêbedo voltou-se para mim, sorrindo como uma criança que brinca na rua até tarde e exclamou:
– Sorria mais, meu senhor! Já viu aquela luz, ali ao fundo?
– Qual luz? A que vem do céu, ou a que vem do café? – perguntei, confuso.
– As duas, claro! São luzes da vida! É para lá que eu vou! Para o meio da vida! – disse, por último, rindo e afastando-se de mim.
Olhei para o terraço do café e tentei distinguir aquelas duas luzes. O bêbedo tinha razão: eram duas luzes que se misturavam…

Estranha Realidade

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O estúdio estava escuro e desarrumado como sempre, e Josefa, a empregada de limpeza, abriu as janelas como de costume, e começou a arrumar. Era segunda-feira: o dia de arrumar o estúdio. Os projectos do menino Pedro estavam espalhados pela secretária e Josefa decidiu deixá-los no mesmo sítio. Não queria que o menino Pedro, quando chegasse da faculdade, não soubesse onde estavam os seus papéis e entrasse em pânico, como já acontecera. O marido de Josefa também ficava em pânico quando a mulher tirava do sítio as suas revistas sobre mecânica, apesar de ser analfabeto.
 O menino Pedro, como Josefa sempre dizia, estudava para arquitecto. A dona Josefa era empregada naquela casa desde ele nascera. Na realidade, aquele estúdio era o quarto de Pedro, mas ele sempre gostou de lhe chamar estúdio, pois dava-lhe um estatuto mais importante. Naquela manhã, ao fazer a cama do Pedro, Josefa deparou-se com uma estranha realidade: debaixo da almofada, da sua cama de solteiro, encontro…

Eternamente

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Queria nascer outra vez Começar tudo novamente Para te poder encontrar Por aí No mesmo corpo No mesmo lugar À minha espera Eternamente.

Disfarçadamente

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Quando morrer Quero nascer  Novamente Para te poder reencontrar Num outro corpo Num outro lugar À minha espera Disfarçadamente.

Nunca mais

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Quando escrevo rápido a minha letra fica feia, o carvão do lápis fica borrado, e o papel tem vontade de se suicidar perante os meus gatafunhos. Está de noite, mas não durmo, porque tenho livros à minha espera, e um céu cheio de pontinhos para decifrar.
   Ouço, de repente, um barulho insistente, forte, quase rítmico. Talvez seja a vizinha para reclamar dos meus gatafunhos. Coloquei a minha casa à venda e ninguém percebe a minha letra no cartaz que espetei na relva do jardim. No fundo, acho que fiz de propósito, porque não quero desfazer-me das recordações da Luísa. Ainda bem que a minha letra é feia quando escrevo depressa.    Abri a porta num instante, pronto para lhe explicar que afinal a casa não estava à venda, mas, do outro lado, não estava ninguém: só o céu, a noite escura, pontinhos estrelados e o frio seco de Dezembro.
   Voltei para a sala e tornei a ouvir o tal barulho, que atribuiria ao vento se não visse as árvores do jardim mais estáticas que uma pedra. A Luísa adorav…

Perder Pensamentos

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Não sei para onde vão os nossos pensamentos quando os perdemos, por isso gravei na minha memória o passeio e as palavras que trocámos quando passeámos entre as árvores e as rochas. Guardei na memória, na esperança de que fosse um sítio seguro, onde as coisas não se perdem. Às vezes os pensamentos enganam-se no caminho e vão ter a outro lugar; ou às vezes a memória está tão lotada de pensamentos que não há mais sítio para alugar; não há mais nenhum quarto confortável para alojar o pensamento.
   No nosso passeio, senti que aquilo era o começo do mundo, pois naquele caminho que foi dar a um velho parque abandonado, não conseguia ver casas ou prédios. Antes de nós existirmos, os caminhos eram todos assim: com árvores e natureza viva. Antes de nós existirmos, havia espaço para tudo, porque ainda não existia o pensamento, o pobre coitado que não arranja espaço na memória para passar a noite.
   Antes de nós, não existia a luz falsificada das lâmpadas que iluminam os prédios. Ao andar p…

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Imagino-o a vaguear pela rua; aquele vaguear de que Cesário Verde tanto gostava. Um deambular pela escura rua, mas não tão escura quanto os seus demónios. 
Imagino-o um menino tão novo, tão perdido e tão criança. A vida andava muito depressa, e os seus pequenos passos não a conseguiam acompanhar. Uma criança que não brincava com as outras; que se sentia um forasteiro no recreio, que via coisas que os outros não conseguiam ver. Via pensamentos e via o terror. Órfão de carinho desde bebé. Órfão da vida no seu esplendor.
Imagino-o um jovem revoltado, envolto nas suas paixões e sombras. Sentia a vida de forma cruel e dura, e só a bebida e o jogo o podiam salvar. Quando olhava para as nuvens, não via o céu azul e pacífico. Os seus demónios tomavam a forma projectada pelo seu olhar genial.
Imagino-o um adulto solitário, sempre vestido de negro e envolto no mistério dos seus pensamentos. A sua vida poderia ser comparada a uma tempestade, daquelas que levam tudo pela frente. Acho que ele amo…